quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Esquerda "reciclada"?

Uma análise a ser considerada

Há alguns dias recebi, através de um post no Facebook de uma amiga, o link para uma entrevista concedida, creio que em 2012, pelo professor de Serviço Social e pensador marxista José Paulo Netto, à revista Caros Amigos, reproduzida na página da Fundação Dinarco Reis (FDR), ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) sob o título Impera na esquerda "reciclada" um cinismo assombroso, cuja leitura atenta recomendo.

O que dá título à matéria NÃO é, de forma alguma, o mais importante da entrevista. Além do que, conhecida a origem, certamente não deve e não há de nos causar qualquer surpresa. Na verdade, grande parte dela está voltada a uma análise do processo histórico de constituição e desenvolvimento das esquerdas no país. Somente na parte final, ao analisar o quadro pós-ditadura e o "ressurgimento" da(s) esquerda(s), é que o pensador faz uma crítica mais aguda daquilo que chama de adesismo, principalmente do PT, a teses ligadas aos interesses do capital.

Não partilho de tudo o que ele expõe. Mas considero ser preciso refletir sobre tais críticas sem chiliques partidaristas e olhando-se para o futuro, o que, como ele mesmo explicita, é o que dificulta a unidade das esquerdas.

Quando digo que não partilho de tudo, refiro-me à descontextualização dessa crítica feita ao PT em relação à realidade política do país - a tal da correlação de forças - e, principalmente, ao otimismo - em minha opinião, "romântico", inexplicável e injustificado - quanto às possibilidades de avanço de teses ("originais e radicais") de esquerda.

Impressiona-me sobremaneira o entusiasmo que esses "teóricos" devotam a uma suposta ideologia e vocação esquerdista da nossa sociedade. E também sua crença na "capacidade" de partidos como PCB, PCO, PSOL e PSTU para serem os protagonistas de um certo "avanço na direção do horizonte socialista".

Quanto ao "cinismo" apontado por ele, sabemos bem que alguns realmente o demonstram. Mas também que da parte de outros podemos sinceramente atribuir a uma adaptação pragmática à realidade e suas possibilidades - que poderiam e deveriam ser conjunturalmente aproveitadas, assim como foram. E, aí, deve-se, mesmo, rechaçar a miopia da tal "oposição de esquerda" e todos os seus ataques (que acabam por prestar um valioso serviço à direita e aos partidos que a representam).

Por outro lado, como já disse acima, é preciso, sim, refletir desapaixonadamente e reconhecer que do ponto de vista estrutural avançamos pouquíssimo ou nada. E que, a persistir na reprodução do que até aqui foi praticado, não há futuro. Precisamos deixar de querer tapar o sol com a peneira e de atribuir apenas a uma tentativa de golpe a razão e motivação das manifestações e protestos já realizados e os prometidos para este ano.

Que há aproveitamento político e manipulação por parte da oposição, isso é inegável. Mas que não poderemos seguir apenas com uma "distribuição" de renda que se limite a retirar pessoas da miséria e possibilitar o aumento de um consumo material e quase de subsistência, isso é também inquestionável. Se não ocorrerem melhorias de fato na qualidade da prestação dos serviços públicos - e é também inegável que em nossos dias nada parecido seja perceptível à população que dela mais necessita - e que apontem no rumo de uma verdadeira e significativa redução das desigualdades que continuam a caracterizar nossa sociedade, o fracasso nos espera em uma das próximas esquinas.

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