sábado, 18 de janeiro de 2014

A irrelevância política de uma moralidade vazia

Uma moralidade passiva ou inativa não tem qualquer relevância ou utilidade na política e não passa de um proselitismo raso e arrogante

É o que mostra o texto que a seguir transcrevo, de autoria de Edvaldo Brito, publicado na Gazeta de Taguatinga.

Trata-se de uma análise acerca da projeção política de um parlamentar aqui do DF, construída a partir de sua - ao que tudo indica verdadeira - honestidade e parcimônia no uso das verbas disponibilizadas para as despesas de seu gabinete. Verbas essas que, em relação a muitos outros parlamentares e em quase todas as casas legislativas do país, a todo instante, são motivos de denúncias por parte da imprensa quanto a desvios e abusos e, em alguns casos, até com a acusação adicional de enriquecimento ilícito.

O artigo, é preciso esclarecer, trata de um parlamentar de um partido supostamente de esquerda e que compõe a base de sustentação do governo e, por sua fonte, parece ter sido escrito com objetivos partidários e eleitorais.

Mas, a despeito disso, traz uma análise bastante pertinente e apropriada e coloca no devido lugar essa prática, que até deveria mesmo ser a de todos, mas que não passa de obrigação e que, por isso, não deveria justificar tanta popularidade e “aprovação” a quem a adote. Principalmente, em se tratando de alguém que, efetivamente, pouco ou nada produz em face do mandato recebido. Parlamentares são eleitos - ou ao menos deveriam sê-lo - para legislar e não para “não gastar” as verbas de seus gabinetes.

Na transcrição abaixo, omito o nome do “político” em questão - que muitos saberão de quem se trata ou poderão descobrir facilmente - para destacar o que é verdadeiramente relevante, que é o que deve e o que não deve fazer um parlamentar.

O uso do termo “político” entre aspas é de propósito, já que o que referido tem feito, como bem mostra o artigo, nada tem de política.

As notas inseridas na transcrição são minhas, não fazem parte do texto original.


(...), uma preferência sem fundamento[1]

Edvaldo Brito*


O Instituto O Parlamento e Pesquisa (sic)[2] realizou uma pesquisa de intenção de votos para Senador no DF que aponta o deputado federal (...) com mais de 1/5 das intenções de voto - 22,2% - o que garantiria a sua eleição para o cargo se o pleito fosse agora.
A sua atuação política, como deputado distrital na Câmara Legislativa do Distrito Federal e como deputado federal na Câmara Federal não fundamentam (sic) esta preferencia (sic) do eleitor.
O seu desempenho nas duas Casas pode ser resumida (sic) apenas em manter a sua imagem de austeridade e honestidade construída com o apoio da mídia.[3] A sua conduta de utilizar o mínimo das verbas e despesas de seu gabinete não produzem (sic) efeitos consistentes para a população e também não são os objetivos finais (sic) de um parlamentar eleito nas urnas.
Nos anais das duas instituições não constam projetos relevantes de sua autoria que possam ter melhorado a vida do cidadão de forma clara e concisa (sic). Em um site especializado em ranquear políticos a sua nota em Qualidade Legislativa (6) é uma das menores entre os políticos do DF. O deputado federal (...) tem nota 95 no mesmo critério.
Só para refletir, uma comparação: eleger o deputado (...) para economizar dinheiro público não fazendo o que foi eleito para fazer é o mesmo que contratar um motorista particular que vai obrigar o patrão a andar de ônibus, com a justificativa da economia de gasolina e desgaste do veículo. Neste caso sai mais barato e eficaz contratar um motorista que saiba dirigir com economia e tem zelo pelo carro.
(...) custa mais caro para os cofres públicos que os seus pares que tem (sic) mais qualidade legislativa, que atingem o topo dos gastos nos seus gabinetes, mas que, em contrapartida, produzem mais. A relação custo/benefício de alguns parlamentares que gastam as suas verbas até o limite para produzir resultados perceptíveis para a sociedade é melhor que a de um deputado federal que passa a sua carreira inteira poupando os recursos que lhe foram disponibilizados. Recursos que devem ser bem e eticamente usados para estudar, analisar, desenvolver e propor políticas públicas em prol da população.[4]
Existem episódios na carreira política de (...) que contrastam com seu discurso de fiscalização do dinheiro público e das traquinagens de seus pares. Não se conhece nenhum caso que (...) tenha se antecipado denunciando escândalos envolvendo qualquer colega seu, especificamente, incisivamente ou claramente, antes que a Polícia, o Ministério Público o tivesse feito. A sua atuação nos escândalos políticos sempre foi a de “chutar o cachorro depois de morto”.
O parlamentar não tem carisma e nunca teve poder de articulação entre os seus pares o que fez com que sua qualidade legislativa na CLDF fosse insignificante, como está sendo na Câmara Federal e como inegavelmente será no senado.
(...) nunca se expôs em um cargo executivo distrital ou federal. Nunca foi e também nunca se colocou a disposição para ser secretário, administrador ou qualquer cargo onde pudesse ser avaliado como executor e não como um mero auditor. Nunca colocou a sua competência (ou in..) à prova, preferindo continuar com a prática do “motorista que obriga o patrão a pegar ônibus para economizar gasolina e preservar o carro”.
O modo “peixe fora d’água” de agir de (...), querendo ser diferente, dificulta e até impede que a sua forma de fazer política atraia seguidores. Ele não consegue servir de exemplo aos seus pares por querer agir sozinho, impondo a imagem de um purista dentro da política, o que não arregimenta simpatizantes para a sua causa.[5]
________________
* Evaldo Brito é jornalista, editor do jornal Folha da Comunidade.




[1] Artigo publicado no jornal Gazeta de Taguatinga, do DF, ano XXVI, ed. 383, de 12 de janeiro de 2014, pág. 2. O parêntese com reticências omite, propositalmente, como explicamos na introdução, o nome do parlamentar.
[2] O nome correto é Instituto O Parlamento, ligado ao jornal O Parlamento.
[3] Em que pese o fato de, a princípio, a imagem corresponder à realidade e à verdadeira forma de agir do deputado, cabe destacar a atuação – tendenciosa e não desinteressada – e a importância da mídia na sua construção.
[4] Perceba-se que o autor não faz uma defesa do abuso das tais verbas parlamentares, que são realmente excessivas.
[5] Lendo este último parágrafo, é impossível não associar o comportamento descrito ao de Marina Silva.

Nenhum comentário:

Postar um comentário