sábado, 19 de abril de 2014

Quando a intolerância é a palavra de ordem...

Já escrevi várias vezes, seja aqui neste blog seja em minha página no Facebook, sobre o quanto temos nos deixado levar pela cultura da intolerância. Mas, ao que parece, será difícil deixar de surpreender-me ou, ao menos, incomodar-me com a capacidade (ou a incapacidade) das pessoas - mesmo aquelas que se julgam e se autoproclamam abertas, democráticas, libertárias, progressistas -, promoverem, impensadamente, o preconceito, a segregação e o ódio.




Pois não é que anteontem deparei-me com essa foto postada no Facebook, acompanhada e seguida de comentários raivosos, a grande maioria deles absolutamente disparatados e sem nada de concreto a fundamentá-los?!



Alguns dos "comentários" chegavam a falar em "maus-tratos" às crianças e a pedir a intervenção dos Conselhos Tutelares. Desnecessário comentar...

Outros, é preciso dizer, a bem da verdade, restringiam-se a condenar uma certa "precocidade" e "precipitação" em promover uma atividade como essa para crianças em tão tenra idade. Com esses, em boa medida, concordo. Mas, apenas em certa medida. Explico por quê: porque mesmo dentre esses "comentaristas", (e o que afirmo baseia-se nas ideias que já os vi divulgar várias vezes) não se incomodariam nem um pouquinho sequer se, por exemplo, na foto, víssemos dois meninos ou duas meninas beijando-se na boca, se é que me entendem... 

A primeira coisa a "impressionar-me" foi a "genialidade" desses tais "comentaristas", dada a sua "capacidade" de "adivinharem" em que condições aconteceu a encenação retratada. Esses "comentaristas" pareciam ter pleno conhecimento do que foi dito a essas crianças antes, durante e depois do teatrinho. Seus "comentários" davam margem à conclusão de que, seja lá como tenham conseguido isso, eles "sabiam", com a mais plena e clara riqueza de detalhes, que os adultos que acompanharam essas crianças "são" pessoas mal intencionadas, fundamentalistas, reacionárias e que a nada mais se dedicaram com essa atividade do que a lhes dar maus ensinamentos. Mais uma vez, sem comentários...

Não se dão conta essas pessoas - porque, obviamente, não sabem, já que não se dispõem nem um pouco a procurar saber - de que, embora tudo o que dizem possa realmente ter ocorrido (também é preciso dizer, porque é uma possibilidade), igualmente pode ter-se dado exatamente o seu oposto. E que, para os que conhecem os trabalhos, a motivação e a capacidade da grande maioria dos catequistas, essa última possibilidade é bem maior. Muito provavelmente, "por trás" de tal encenação, houve uma catequese do amor, da entrega, da fidelidade a princípios e valores de justiça, solidariedade, não violência.

Mas, como tenho dito em meus escritos (artigos e posts), infelizmente, muito, muito infelizmente, boa parte das pessoas está cada vez mais se fechando em suas crenças (muitas delas sem qualquer fundamentação em fatos ou dados da realidade) e [des]valores e criando mais e mais situações e motivos de divisão que de união, de conflito que de harmonia, de ódio que de amor.

A persistir esse cenário e essa atitude, não consigo visualizar um horizonte que possa chamar de desejável.

Resta-me, nessa hora, recorrer à Oração de São Francisco, um magnífico antídoto a esse veneno!

E também ao pensamento da filósofa Hannah Arendt, que tanto refletiu e escreveu sobre essa incapacidade ou recusa de alguns seres humanos à atividade do pensar e sobre suas consequências - a violência, a intolerância, o mal banalizado.

E resistir, não desistir e seguir, buscando, com todas as forças, nunca perder a capacidade de pensar e de - importantíssimo - ouvir o outro antes de chegar a qualquer julgamento e ação.

Quando a intolerância é a palavra de ordem...

Já escrevi várias vezes, seja aqui seja em meu blog, sobre o quanto temos nos deixado levar pela cultura da intolerância. Mas, ao que parece, será difícil deixar de surpreender-me ou, ao menos, incomodar-me com a capacidade (ou INcapacidade) das pessoas - mesmo aquelas que se julgam e se autoproclamam abertas, democráticas, libertárias, progressistas -, de promover a segregação e o ódio.

Pois não é que ontem deparei-me com essa foto postada aqui no FB, seguida dos comentários mais raivosos, a grande maioria deles absolutamente disparatados e sem qualquer base concreta a fundamentá-los?!

Alguns dos "comentários" chegavam a falar em "maus-tratos" às crianças e a pedir a intervenção dos Conselhos Tutelares. Precisa comentar?

Outros, é preciso dizer, a bem da verdade, restringiam-se a condenar uma certa precocidade" e "precipitação" em promover uma atividade como essa para crianças em tão tenra idade. Com esses, em boa medida, concordo. Mas, apenas em certa medida. Explico por quê: porque mesmo dentre esses "comentaristas", (o que afirmo baseia-se nas ideias que os vejo divulgar por aqui) não se incomodariam nem um pouquinho sequer se, por exemplo, na foto, víssemos dois meninos ou duas meninas beijando-se na boca, se é que me entendem...

A primeira coisa a "impressionar-me" foi a "genialidade" desses tais "comentaristas", dada a sua capacidade de "adivinharem" em que condições aconteceu a encenação retratada. Esses "comentaristas" parecem ter pleno conhecimento do que foi dito a essas crianças antes, durante e depois do teatrinho. "Sabem", com a mais plena convicção, que os adultos que as acompanharam "são" pessoas mal intencionadas, fundamentalistas, reacionárias e que a nada mais se dedicaram com essa atividade do que a lhes dar maus ensinamentos. Mais uma vez, sem comentários...

Não se dão conta essas pessoas - porque, obviamente, não sabem, já que não se dispõem nem um pouco a procurar saber - de que, embora tudo o que dizem possa realmente ter ocorrido (é preciso dizer, porque é uma possibilidade), o seu oposto também pode. E que, para os que conhecem os trabalhos, a motivação e a capacidade da grande maioria dos catequistas, essa última possibilidade é bem maior. Muito provavelmente, "por trás" de tal encenação, houve uma catequese do amor, da entregue, da fidelidade a princípios e valores de justiça, solidariedade, não violência.

Mas, como tenho dito em meus escritos (posts e artigos), infelizmente, muito, muito infelizmente, boa parte das pessoas está cada vez mais se fechando em suas crenças (muitas delas sem qualquer fundamentação em fatos ou dados da realidade) e (des)valores e criando mais situações e motivos de divisão que de união, de segregação que de harmonia, de ódio que de amor. E isso muito me faz ficar triste e lamentar.

Resta-me, nessa hora, recorrer à Oração de São Francisco, um magnífico antídoto a esse veneno!

E também ao pensamento de Hannah Arndt.

E resistir, não desistir e seguir, buscando, com todas as forças, nunca perder a capacidade de pensar e de, importantíssimo, ouvir o outro antes de chegar a qualquer julgamento e ação.

sábado, 18 de janeiro de 2014

A irrelevância política de uma moralidade vazia

Uma moralidade passiva ou inativa não tem qualquer relevância ou utilidade na política e não passa de um proselitismo raso e arrogante

É o que mostra o texto que a seguir transcrevo, de autoria de Edvaldo Brito, publicado na Gazeta de Taguatinga.

Trata-se de uma análise acerca da projeção política de um parlamentar aqui do DF, construída a partir de sua - ao que tudo indica verdadeira - honestidade e parcimônia no uso das verbas disponibilizadas para as despesas de seu gabinete. Verbas essas que, em relação a muitos outros parlamentares e em quase todas as casas legislativas do país, a todo instante, são motivos de denúncias por parte da imprensa quanto a desvios e abusos e, em alguns casos, até com a acusação adicional de enriquecimento ilícito.

O artigo, é preciso esclarecer, trata de um parlamentar de um partido supostamente de esquerda e que compõe a base de sustentação do governo e, por sua fonte, parece ter sido escrito com objetivos partidários e eleitorais.

Mas, a despeito disso, traz uma análise bastante pertinente e apropriada e coloca no devido lugar essa prática, que até deveria mesmo ser a de todos, mas que não passa de obrigação e que, por isso, não deveria justificar tanta popularidade e “aprovação” a quem a adote. Principalmente, em se tratando de alguém que, efetivamente, pouco ou nada produz em face do mandato recebido. Parlamentares são eleitos - ou ao menos deveriam sê-lo - para legislar e não para “não gastar” as verbas de seus gabinetes.

Na transcrição abaixo, omito o nome do “político” em questão - que muitos saberão de quem se trata ou poderão descobrir facilmente - para destacar o que é verdadeiramente relevante, que é o que deve e o que não deve fazer um parlamentar.

O uso do termo “político” entre aspas é de propósito, já que o que referido tem feito, como bem mostra o artigo, nada tem de política.

As notas inseridas na transcrição são minhas, não fazem parte do texto original.


(...), uma preferência sem fundamento[1]

Edvaldo Brito*


O Instituto O Parlamento e Pesquisa (sic)[2] realizou uma pesquisa de intenção de votos para Senador no DF que aponta o deputado federal (...) com mais de 1/5 das intenções de voto - 22,2% - o que garantiria a sua eleição para o cargo se o pleito fosse agora.
A sua atuação política, como deputado distrital na Câmara Legislativa do Distrito Federal e como deputado federal na Câmara Federal não fundamentam (sic) esta preferencia (sic) do eleitor.
O seu desempenho nas duas Casas pode ser resumida (sic) apenas em manter a sua imagem de austeridade e honestidade construída com o apoio da mídia.[3] A sua conduta de utilizar o mínimo das verbas e despesas de seu gabinete não produzem (sic) efeitos consistentes para a população e também não são os objetivos finais (sic) de um parlamentar eleito nas urnas.
Nos anais das duas instituições não constam projetos relevantes de sua autoria que possam ter melhorado a vida do cidadão de forma clara e concisa (sic). Em um site especializado em ranquear políticos a sua nota em Qualidade Legislativa (6) é uma das menores entre os políticos do DF. O deputado federal (...) tem nota 95 no mesmo critério.
Só para refletir, uma comparação: eleger o deputado (...) para economizar dinheiro público não fazendo o que foi eleito para fazer é o mesmo que contratar um motorista particular que vai obrigar o patrão a andar de ônibus, com a justificativa da economia de gasolina e desgaste do veículo. Neste caso sai mais barato e eficaz contratar um motorista que saiba dirigir com economia e tem zelo pelo carro.
(...) custa mais caro para os cofres públicos que os seus pares que tem (sic) mais qualidade legislativa, que atingem o topo dos gastos nos seus gabinetes, mas que, em contrapartida, produzem mais. A relação custo/benefício de alguns parlamentares que gastam as suas verbas até o limite para produzir resultados perceptíveis para a sociedade é melhor que a de um deputado federal que passa a sua carreira inteira poupando os recursos que lhe foram disponibilizados. Recursos que devem ser bem e eticamente usados para estudar, analisar, desenvolver e propor políticas públicas em prol da população.[4]
Existem episódios na carreira política de (...) que contrastam com seu discurso de fiscalização do dinheiro público e das traquinagens de seus pares. Não se conhece nenhum caso que (...) tenha se antecipado denunciando escândalos envolvendo qualquer colega seu, especificamente, incisivamente ou claramente, antes que a Polícia, o Ministério Público o tivesse feito. A sua atuação nos escândalos políticos sempre foi a de “chutar o cachorro depois de morto”.
O parlamentar não tem carisma e nunca teve poder de articulação entre os seus pares o que fez com que sua qualidade legislativa na CLDF fosse insignificante, como está sendo na Câmara Federal e como inegavelmente será no senado.
(...) nunca se expôs em um cargo executivo distrital ou federal. Nunca foi e também nunca se colocou a disposição para ser secretário, administrador ou qualquer cargo onde pudesse ser avaliado como executor e não como um mero auditor. Nunca colocou a sua competência (ou in..) à prova, preferindo continuar com a prática do “motorista que obriga o patrão a pegar ônibus para economizar gasolina e preservar o carro”.
O modo “peixe fora d’água” de agir de (...), querendo ser diferente, dificulta e até impede que a sua forma de fazer política atraia seguidores. Ele não consegue servir de exemplo aos seus pares por querer agir sozinho, impondo a imagem de um purista dentro da política, o que não arregimenta simpatizantes para a sua causa.[5]
________________
* Evaldo Brito é jornalista, editor do jornal Folha da Comunidade.




[1] Artigo publicado no jornal Gazeta de Taguatinga, do DF, ano XXVI, ed. 383, de 12 de janeiro de 2014, pág. 2. O parêntese com reticências omite, propositalmente, como explicamos na introdução, o nome do parlamentar.
[2] O nome correto é Instituto O Parlamento, ligado ao jornal O Parlamento.
[3] Em que pese o fato de, a princípio, a imagem corresponder à realidade e à verdadeira forma de agir do deputado, cabe destacar a atuação – tendenciosa e não desinteressada – e a importância da mídia na sua construção.
[4] Perceba-se que o autor não faz uma defesa do abuso das tais verbas parlamentares, que são realmente excessivas.
[5] Lendo este último parágrafo, é impossível não associar o comportamento descrito ao de Marina Silva.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Esquerda "reciclada"?

Uma análise a ser considerada

Há alguns dias recebi, através de um post no Facebook de uma amiga, o link para uma entrevista concedida, creio que em 2012, pelo professor de Serviço Social e pensador marxista José Paulo Netto, à revista Caros Amigos, reproduzida na página da Fundação Dinarco Reis (FDR), ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) sob o título Impera na esquerda "reciclada" um cinismo assombroso, cuja leitura atenta recomendo.

O que dá título à matéria NÃO é, de forma alguma, o mais importante da entrevista. Além do que, conhecida a origem, certamente não deve e não há de nos causar qualquer surpresa. Na verdade, grande parte dela está voltada a uma análise do processo histórico de constituição e desenvolvimento das esquerdas no país. Somente na parte final, ao analisar o quadro pós-ditadura e o "ressurgimento" da(s) esquerda(s), é que o pensador faz uma crítica mais aguda daquilo que chama de adesismo, principalmente do PT, a teses ligadas aos interesses do capital.

Não partilho de tudo o que ele expõe. Mas considero ser preciso refletir sobre tais críticas sem chiliques partidaristas e olhando-se para o futuro, o que, como ele mesmo explicita, é o que dificulta a unidade das esquerdas.

Quando digo que não partilho de tudo, refiro-me à descontextualização dessa crítica feita ao PT em relação à realidade política do país - a tal da correlação de forças - e, principalmente, ao otimismo - em minha opinião, "romântico", inexplicável e injustificado - quanto às possibilidades de avanço de teses ("originais e radicais") de esquerda.

Impressiona-me sobremaneira o entusiasmo que esses "teóricos" devotam a uma suposta ideologia e vocação esquerdista da nossa sociedade. E também sua crença na "capacidade" de partidos como PCB, PCO, PSOL e PSTU para serem os protagonistas de um certo "avanço na direção do horizonte socialista".

Quanto ao "cinismo" apontado por ele, sabemos bem que alguns realmente o demonstram. Mas também que da parte de outros podemos sinceramente atribuir a uma adaptação pragmática à realidade e suas possibilidades - que poderiam e deveriam ser conjunturalmente aproveitadas, assim como foram. E, aí, deve-se, mesmo, rechaçar a miopia da tal "oposição de esquerda" e todos os seus ataques (que acabam por prestar um valioso serviço à direita e aos partidos que a representam).

Por outro lado, como já disse acima, é preciso, sim, refletir desapaixonadamente e reconhecer que do ponto de vista estrutural avançamos pouquíssimo ou nada. E que, a persistir na reprodução do que até aqui foi praticado, não há futuro. Precisamos deixar de querer tapar o sol com a peneira e de atribuir apenas a uma tentativa de golpe a razão e motivação das manifestações e protestos já realizados e os prometidos para este ano.

Que há aproveitamento político e manipulação por parte da oposição, isso é inegável. Mas que não poderemos seguir apenas com uma "distribuição" de renda que se limite a retirar pessoas da miséria e possibilitar o aumento de um consumo material e quase de subsistência, isso é também inquestionável. Se não ocorrerem melhorias de fato na qualidade da prestação dos serviços públicos - e é também inegável que em nossos dias nada parecido seja perceptível à população que dela mais necessita - e que apontem no rumo de uma verdadeira e significativa redução das desigualdades que continuam a caracterizar nossa sociedade, o fracasso nos espera em uma das próximas esquinas.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O paradoxo dos "rolezinhos"

Insubordinação ou adesão ao sistema?

A recente onda dos rolezinhos de jovens da periferia nos shoppings - templos de consumo da classe média - cria perplexidades, mostra aparentes contradições e deixa claro o caráter segregacionista e preconceituoso da sociedade brasileira.

O artigo Os novos "vândalos" do Brasil, da excelente jornalista Eliane Brum e a entrevista com o antropólogo Alexandre Barbosa Pereira, da Unifesp, apresentam-nos não apenas perguntas e respostas acerca desses eventos e da forma como foram reprimidos, como também algumas questões de fundo, sobre as quais é preciso que nos debrucemos.

Uma delas é o fato de que resta claro que a forma tradicional e convencional de se fazer política já não dá mais conta das demandas da nossa sociedade. O que ressalta a premente necessidade não só de uma reforma política - não meramente eleitoral, mas de incremento e valorização da participação e iniciativa popular -, mas também de renovação dos próprios quadros políticos, dado que uma grande parcela de nossos atuais "representantes" insistem ou em não compreender os novos tempos, ou, compreendendo-os, em não agir conforme as expectativas, desejos e interesses daqueles a quem pretensamente representam.

Igualmente importante é o fato de que, apesar de todos os avanços da última década, ainda somos um país com uma enorme desigualdade social. Principalmente por conta do conservadorismo e reacionarismo das elites e de uma parte da classe média que, de forma míope, segue refratária à necessidade de eliminação dessas cercas invisíveis que eternizam o apartheid social em que sempre vivemos.

Uma outra questão, nada fácil de ser enfrentada e respondida, é sobre o caráter ideológico de tudo o que vem ocorrendo nos últimos meses. E mesmo sobre se há e qual a ideologia predominante em nossa sociedade.

Há quem, à direita - embora nunca se assumam -, entenda que o que nossas elites e seus legítimos representantes sempre asseguraram é o melhor para o país. Está claro que estão errados. Ou ainda há alguém que duvide disso?

Por outro lado, será que estão certos aqueles que, à esquerda, acreditam que é mesmo desejo do país a ruptura com o sistema? Pode até ser que sim, mas... há controvérsias.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Desigualdade escancarada

(Reprodução de artigo do jornalista Paulo Moreira Leite, publicado em sua coluna no site de ISTOÉ)

Ao contrário do que ocorreu na AP 470, tucanos conseguem desmembrar julgamento do propinoduto


Em agosto de 2012, no início do julgamento da ação penal 470, o advogado Márcio Thomaz Bastos colocou uma questão de ordem.

Queria desmembrar o julgamento, separando os réus com direito a foro privilegiado – três deputados – e os demais 35, que teriam direito a serem examinados na primeira instância. O pedido foi rejeitado por 9 a 2.

Ontem, o ministro Marco Aurélio de Mello, examinou a denuncia sobre o propinoduto tucano, que envolve corrupção nas obras do metrô paulista. Marco Aurélio decidiu desmembrar o processo.

A decisão de ontem não compromete a biografia de Marco Aurélio, que foi um dos dois votos a favor do desmembramento, em 2012.

Mas mostra que a noção de que o STF iria “mudar a história” ao fazer o “julgamento do século” e “acabar com a impunidade dos poderosos” está longe de corresponder a realidade. Não fez jurisprudência nem no STF, pelo visto.

Em agosto de 2012 o Supremo já havia desmembrado o mensalão do PSDB-MG, decisão tomada antes de negar a mesma medida na AP 470.

Repetiu a prática, agora, com os tucanos de São Paulo.

Encarregado de julgar o mensalão do DEM-DF e seus parlamentares filmados quando recebiam dinheiro na meia, em saco de supermercado e sacola de feira, o STJ também desmembrou.

Ou seja: sequer no plano das aparências é possível dizer que se oferece um tratamento igual para situações iguais. “Dois pesos, dois mensalões,” escreveu Janio de Freitas, em 2012.

Em 3 de agosto de 2012, escrevi neste espaço: “O julgamento continua. Mas essa decisão (o não-desmembramento), tão diferente para situações tão parecidas, vai gerar muita polêmica, estejam certos.”

Um ano e meio depois, descobre-se que uma decisão crucial da AP 470, que determinou vários de seus desdobramentos, não será seguida mais uma vez.

Imagine: com o desmembramento, réus como José Dirceu, Delúbio Soares e 32 outros acusados muito possivelmente sequer teriam sido julgados até agora, como acontece com os réus do mensalão PSDB-MG, que envolvem crimes cometidos seis anos antes dos casos denunciados na AP 470 e ninguém sabe quando irão receber a sentença em definitivo.

Mesmo que isso tivesse ocorrido, eles teriam direito a um segundo julgamento, por outra corte de Justiça. Em vez disso, em casos especialíssimos, têm direito a uma revisão limitada e pontual, com várias condicionantes, pelo mesmo tribunal.

Em 2012, o simples voto a favor do desmembramento provocou mal-estar no plenário do STF. Quando Ricardo Lewandowski votou a favor do pedido, Joaquim Barbosa fez uma intervenção agressiva: “Me causa espécie que tratemos dessa questão agora. Isso é deslealdade”. O revisor retrucou: “me causa espécie que sua excelência queira impedir que eu me manifeste.”

Ao votar contra o pedido de desmembramento feito na ação penal 470, o ministro Gilmar Mendes alegou que, se o caso não estivesse no Supremo, o processo prescreveria. Vamos ler o que disse:

"Esse processo só está chegando a seu termo porque ficou concentrado no Supremo Tribunal Federal", disse. "Se estivesse espalhado por aí, o seu destino era a prescrição."

Desmembramento é igual a prescrição na opinião de Gilmar Mendes, se entendi bem. E agora?

Sou favorável ao desmembramento. Não só pelo princípio de que deve-se garantir tratamentos iguais a cidadãos acusados de crimes iguais, mas porque a Constituição define assim. Quem tiver alguma dúvida sobre a incompetência do STF para julgar réus que não possuem o foro privilegiado, só precisa digitar o nome de Dalmo Dallari na internet para ter uma aula irretocável sobre o assunto.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Judicialização da política: um golpe na democracia

Estão sitiando o prefeito Haddad e também a vontade popular

Depois da decisão liminar do TJSP - confirmada pelo STJ e pelo STF - que suspendeu a revisão do cálculo do IPTU para 2014, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad foi mais uma vez impedido de pôr em prática um de seus projetos de governo. Trata-se da suspensão pelo TCM da construção de 150 km de corredores para ônibus.

Duas decisões judiciais que, na prática, cassam o mandato popular recebido das urnas, uma vez que impedem o prefeito de executar os projetos submetidos à população da cidade e por ela aprovados ao elegê-lo. E também de governar em favor dos mais necessitados e de adotar medidas que reduzem as enormes e flagrantes desigualdades sociais na maior e mais importante cidade do país.

A revisão do IPTU, como agora já se sabe graças ao trabalho da blogosfera e da militância através das redes sociais, ao contrário do que alardeou a mídia corporativa, não era um aumento abusivo e indiscriminado do valor do imposto. Tratava-se, na verdade, de uma mudança de paradigma - a progressividade do imposto. Com aumento máximo - apresentado pela mídia como se fosse igual para todos - para uma pequena parcela dos imóveis, dos mais ricos, os únicos a ganhar com a decisão dos tribunais. E uma redução de até 12% para uma grande parcela dos imóveis da periferia e isenção para muitos dos bairros mais pobres.

E a construção dos corredores de ônibus, representaria, com certeza, melhorias nas condições de transporte e locomoção dos trabalhadores. Sua suspensão mantém a situação tal como se encontra e que favorece o transporte individual, mais uma vez dos mais ricos, igualmente beneficiados pela decisão judicial.

Mas, o mais grave e importante desses dois casos, está na judicialização e no consequente aprofundamento da desmoralização da política.

Está em curso no país, sem que, infelizmente, a grande maioria da população se dê conta, um golpe contra a democracia e a vontade popular. A direita, que sempre governou o país em benefício das elites, perde seguidamente as eleições, mas continua ganhando o poder e garantido suas regalias e privilégios no tapetão.

O Judiciário, com a ajuda do Ministério Público, vem descaradamente avançando sobre as competências constitucionais dos demais poderes. Através de numerosíssimas sentenças, em todas as instâncias, vem legislando e determinando atos de governo. No DF, há poucos meses, uma decisão do TJ fixou o número, a localização e o prazo para a construção de Centros de Atendimento a Dependentes Químicos.

Outros exemplos em âmbito federal (as várias regras criadas durante o julgamento da demarcação das terras da Reserva Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima; a aprovação da união homoafetiva; a "aprovação" dos abortos de fetos anencéfalos; a suspensão da votação dos vetos à lei dos royalties do petróleo)  e estes casos mais recentes envolvendo o prefeito de São Paulo são a clara demonstração de que estamos sob a ditadura do Judiciário, justamente o Poder que não tem votos e que não representa - porque não deve mesmo representar - nenhuma parcela da população. Em nosso tão proclamado "Estado de Direito", o Poder a quem cabe a tarefa de guardar e fazer cumprir a lei é justamente o que mais a tem violado.

A seguir reproduzo artigo do jornalista Paulo Moreira Leite que, com mais talento e competência, trata desse mesmo assunto, que deveria ser objeto das preocupações de nossos políticos e da sociedade como um todo.

Infelizmente, não vejo, hoje, o menor preparo e nem mesmo disposição de nossos políticos para o enfrentamento que se fará necessário para sustar esse processo, fazendo o Judiciário voltar a cuidar de suas atribuições e deixar a política para os poderes aos quais a Constituição a delegou.

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PROFECIA QUE SE AUTORREALIZOU
Por Paulo Moreira Leite, em sua coluna no site de ISTOÉ

Suspensão de corredores desvaloriza voto popular e aumenta cerco a Haddad em ano de eleição presidencial

Ao suspender a construção dos corredores de ônibus em São Paulo, o Tribunal de Contas do Município dá sequencia ao conjunto de medidas que tem anestesiado os poderes do prefeito Fernando Haddad.

Não importa se você gosta ou não dos corredores. Se acha que os táxis deveriam ser autorizados a trafegar nos espaços reservados aos ônibus ou se eles sequer deveriam ser construídos.

São Paulo debate os corredores de ônibus desde que o primeiro deles foi construído pelo prefeito (nomeado) Mário Covas. Jornais e emissoras de rádio passaram um ano inteiro dando porrada. Quando a obra ficou pronta, até o novo prefeito, Janio Quadros, disse que era a favor.

Isso é história.

O que importa hoje é a democracia, uma conquista histórica, que permitiu escolher prefeitos em urnas, também.

Haddad foi eleito com 55% dos votos e tem todo direito de realizar seu programa de governo. Teremos novas eleições em 2016 e, nesta hora, se a maioria decidir o contrário, os corredores podem ser, literalmente, desconstruídos.

O que não vale é um tribunal, de autoridades não-eleitas, tomar uma decisão dessa natureza. O caso dos corredores é ainda mais preocupante porque estamos falando de um tribunal de contas, que, em sua origem, tem um papel de aconselhar autoridades a tomar medidas, sugerir decisões -- mas não dispõe das mesmas funções e poderes do Judiciário convencional.

A Constituição, como se sabe, informa em seu artigo 1º. que todos os poderes emanam do povo, que o exerce através dos representantes eleitos. Isso implica em reservar, ao Legislativo, o papel de formular leis. Reserva, ao Executivo, o papel de executá-las. Jà o Judiciário tem a função de julgar se a lei em vigor está sendo aplicada devidamente. Como ensinam os bons juristas, um tribunal não faz justiça, missão que cabe à política. Os tribunais aplicam leis.

Mas não é isso que estamos assistindo no país, hoje. Em vários escalões, o Judiciário tem tomado medidas que vão além de suas atribuições. Basta lembrar que o Supremo Tribunal Federal decidiu suspender a votação dos royalties do petróleo e até hoje o caso permanece empacado, embora o Congresso já tenha deixado claro o que pensa a respeito. O STF também discute

O Supremo também proibiu, através do presidente Joaquim Barbosa, que Fernando Haddad fizesse um reajuste do IPTU. Em outra medida do mesmo teor, a Justiça cancelou a decisão de Haddad que suspendia o Controlar. A Justiça também se colocou no direito de definir as metas e prazos do prefeito para cumprir um programa de construção de creches.

O que é isso? É a judicialização da política, que discuti em dois artigos recentes aqui neste espaço. É um processo que permite ignorar a decisão dos eleitores e aplicar medidas que foram rejeitadas nas urnas. O que se quer é a soberania dos tribunais, em vez da soberania da população. As decisões que envolvem IPTU e transporte coletivo, são medidas e conteúdo social bem definido, que impedem medidas que favorecem os pobres e mantém privilégios dos bem nascidos.
 
Em qualquer caso, são medidas inapropriadas. Não cabe ao Tribunal de Contas do Municípios avaliar o programa dos corredores, pois este julgamento faz parte dos poderes que a Constituição reserva aos representantes eleitos do povo.

No curto prazo, é difícil deixar de notar que o cerco a Fernando Haddad ocorre num ano de eleição presidencial, onde o voto na cidade de São Paulo tem, sempre, um peso importante na decisão do voto nacional.

Em horizonte mais longo, o saldo desse processo é fácil de perceber. Implica em desmoralizar o voto dos brasileiros, em convencer os eleitores que suas escolhas têm pouco valor prático. São medidas que ajudam a preparar processos autoritários.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sou cristão!

Um aviso ao meus amigos (aos novos e a alguns mais antigos):

Sou cristão. Livre, pensante, que me nego a uma obediência cega a dogmas ou a normas que visem apenas à preservação da instituição. Mas, sou cristão!

+ Sou a favor do amor. Do amor incondicional. Por isso, sou a favor do direito à união legal entre quaisquer pessoas adultas, independentemente do seu sexo e do número de pessoas envolvidas nessa união;
+ Sou a favor da família e de que toda criança deve ter uma. Por isso, sou a favor de que toda criança órfã ou abandonada tenha a oportunidade de ser adotada. Por qualquer família que esteja disposta a amá-la e a ajudar em sua formação, independentemente de essa família ser mono ou poliparental, hetero ou homoafetiva, mono ou poligâmica;
+ Sou humano e, por isso, um ser político. E também religioso. Por isso, sou a favor da mais ampla liberdade de cultos (desde que não preguem a intolerância e o ódio). E também do direito a não praticar qualquer culto. Mas também sou a favor de que toda pessoa ou grupo possa se manifestar politicamente, em seu nome ou no de sua religião, sobre todo e qualquer assunto;
+ Pela mesma razão, sou a favor do estado laico, mas não de um estado ateu;
+ Sou a favor da vida. Da vida digna. Mas da vida de todos. Desde a fecundação. Por isso, sou a favor do direito à opção das mulheres pela interrupção da gravidez nos casos já previstos na legislação (fetos anencéfalos, risco de morte para a gestante, gestação resultante de estupro), mas sou contra o direito indiscriminado ao aborto;
+ Sou a favor da convivência harmônica e respeitosa entre todas as pessoas. Por isso, empenho-me para respeitá-las e busco praticar a tolerância. Logo, sou a favor de que todas as opiniões e crenças devem ser respeitadas e de que nem cristãos, nem crentes de qualquer outra fé (inclusive ateus, que têm a fé de que Deus não existe) tentem impor seu credo ou sua opinião ao restante da humanidade.
+ Mas também sou a favor de que ninguém se julgue no direito de ofender (ou considerar desprovida de inteligência) qualquer pessoa, em razão de sua fé.

+ Sou um ser humano. Sou inteligente. Sou cristão.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Pizzolato jogou água no champanhe da direitona

Reprodução de artigo de autoria de Antonio Barbosa Filho, publicado em seu blogue VALEPENSAR em 17/11/2013.



Estava tudo preparado para a direitona brasileira (quase escrevi nacional, mas não podemos nos esquecer que os nossos golpistas apenas repetem o que lhe manda o fascismo internacional, é colonizada de corpo e alma) estourar o champanhe francês em comemoração à vitória da mentira e do ódio sobre a Justiça. Mas não é que o réu cuja inocência está mais provada entre todos os do "mentirão", Henrique Pizzolato, escapuliu para a Itália, não para fugir da Justiça, mas para buscá-la?

Não vou repetir aqui as pilhas de provas já publicadas, como no livro do excelente repórter Raimundo Pereira, pois quem quiser poderá acessá-las facilmente. São tão gritantes, que qualquer pessoa de bom-senso se escandalizará com a armação feita pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista) com a ativa participação de Joaquinzinho Barbosa e dos ministros do STF que temem seus esculachos públicos e sua cara-feia. Basta recordar uma coisa óbvia, que desmonta toda a farsa: o dinheiro da Visanet não é dinheiro público, e os contratos que aquela empresa multinacional fez com as agências de publicidade foram cumpridos! Não houve aí nenhum crime. E, se tivesse havido algo errado, os contratos foram assinados por três diretores do Banco do Brasil nomeados no governo Fernando Henrique, quando Pizzolato nem estava na função!

Como eu previa há meses, o Brasil passará um vexame internacional por ter permitido que a nossa Suprema Corte se transformasse num tribunal de exceção, com objetivos e condutas políticas e eleitoreiras. Você não se surpreendeu quando a primeira condenação dos "mensaleiros" saiu exatamente na véspera do primeiro turno da eleição de 2012? E a segunda onda de condenações "coincidiu" exatamente com o segundo turno? E quando Joaquinzinho trabalhou no feriado da República, para que os condenados fossem presos naquela data histórica? Ora, quem não enxerga o esquema, o calendário político do STF, certamente já colocou as meias na janela para esperar o Papai Noel que virá voando no seu trenó...

O fato é que a festa da direitona acabou frustrada. O champanhe ficou aguado, porque um dos principais réus, aquele que seria o elo necessário entre dinheiro público e "mensaleiros", conseguiu fugir da perseguição frenética do Joaquinzinho, e vai botar a boca no mundo, mostrando aos juristas e políticos, e à opinião pública internacional, como foi dado um golpe institucional no Brasil. Voltamos a ter presos políticos em pleno século 21!

Ao contrário do que desejava a direitona, especialmente o Joaquim e a mídia golpista, é que o assunto morresse por aqui, com todos os réus na cadeia. Teriam o que falar na campanha eleitoral de 2014. Não conseguiram as imagens de José Dirceu, José Genoíno e outros líderes do PT, algemados e humilhados num camburão, como se fossem criminosos. Ao contrário, os braços erguidos e a altivez de Dirceu e Genoíno deram um banho de dignidade aos porcos. E tudo se completa com a presença de Pizzolato perante a Justiça italiana, que nossos golpistas não conseguirão comprar ou intimidar. Vamos assistir ao anti-mensalão, agora em italiano e com repercussão mundial.

Nesta segunda, no ato em que será entregue o prêmio Juca Pato de "Intelectual do Ano" ao meu amigo Audálio Dantas, vou encontrar-me com alguns dos principais jornalistas e escritores do Brasil. Defenderei a necessidade de uma grande mobilização dos intelectuais, como também dos trabalhadores e de todos os democratas, para reagirmos e derrubarmos esta ditadura imposta pelo PIG-STF. Ou voltamos à trincheira da luta democrática, como fizemos contra a ditadura militar, ou o Brasil será irrespirável, um país sem leis e cheio de ódio de uma falsa elite pelo nosso Povo. Confio plenamente nos brasileiros e na sua vigorosa resistência. Ditadura, mesmo da mídia cartelizada e do Judiciário, nunca!


Que prevaleça a desportividade, a lógica e o bom senso!

Sobre o imbróglio no Campeonato Brasileiro de Futebol

De tudo o que vi, ouvi e li a respeito, o artigo do Hélio Schwartsman Garfando a Portuguesa, publicado hoje na Folha de S.Paulo é o mais sensato, o que melhor resume a questão e que trata daquilo que realmente importa em toda essa confusão.

A questão de fundo, e que deve ser o foco da análise e do julgamento, é saber se houve ou não dolo e se a Portuguesa foi irregularmente beneficiada - em detrimento de outras equipes - pela participação do Héverton no jogo contra o Grêmio. A resposta em ambas os casos é NÃO. Porque qualquer que tivesse sido o resultado do jogo, inclusive a derrota, a Lusa permaneceria na Série A.

Caso a equipe paulista venha a ser punida com a perda adicional de três pontos, conforme determina o regulamento, aí, sim, haverá uma inversão indevida daquilo que a prática do esporte - o jogo jogado - estabeleceu: o rebaixamento do Fluminense para a Série B.

Àqueles que clamam pela aplicação simples e direta da regulamento, cabe esclarecer que a fixação de qualquer regra não se dá pela regra em si, mas como meio para se atingir um determinado objetivo ou evitar-se determinadas situações.

Quando a aplicação da regra leva a um resultado diferente - e, nesse caso, ele não será apenas diferente, mas diverso, contrário - daquele para o qual ela foi criada, ela deve ser ignorada ou circunstanciada.

É o que Schwartsman expõe ao afirmar que "É óbvio que normas são importantes. Mas não se pode esquecer que elas são um meio para promover a paz social e outros objetivos relevantes, não um fim em si mesmo". Tudo o mais, como diz o autor, é formalismo ridículo - e oportunista, acrescento eu -, principalmente em se tratando do futebol brasileiro.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Por que é vital que o mensalão seja avaliado por uma corte internacional

Reprodução do artigo de Paulo Nogueira, publicado em seu blogue Diário do Centro do Mundo, em 19 de abril de 2013.

Há muitos sinais de que foram cometidos erros graves pelo Supremo.


Rumo à OEA

Vamos refletir sem paixões partidárias.

Não sei se isso é possível num país tão polarizado, mas para o Diário é: nosso partido é a Escandinávia, e os leitores sabem disso.

Pois bem.

Faz sentido aceitar estoicamente o julgamento do Mensalão depois que vieram à luz, depois do veredito do final do ano passado, tantos descalabros entre os juízes do Supremo Tribunal Federal?

Mesmo leigos hoje são capazes de dissertar, com propriedade, sobre pataquadas ocorridas no julgamento.

Nossa mais alta corte – sejamos francos – é de segunda, ou terceira, classe. Seus integrantes são, numa palavra, fracos.

Fux é o maior exemplo, mas não o único.

Há sinais de que nenhum deles sabia o que é o chamado BV, Bônus por Volume – uma propina legal inventada pela Globo para forçar as agências a anunciar nela.

E o BV pode explicar coisas que sequer foram discutidas num julgamento em que o STF, sob as câmeras interesseiras da televisão, mais pareceu o BBB.

E então, com toda a precariedade do STF, e mais a pressão da mídia, você é condenado a dez anos de prisão e chamado de chefe de quadrilha, como aconteceu com Dirceu.

Faça as contas: ele já passou dos 60 faz algum tempo. Poderia viver seus últimos anos na cadeia.

E condenado por quem? Não por Cíceros, não por Catões – mas por Barbosas e Fuxes, e mais a máquina dos Marinhos.

Você não precisa ser a favor de Dirceu. Basta ver quem é contra. A Globo, por exemplo. Quando a Globo apoiou uma boa causa no Brasil?

Roberto Marinho era dono de um jornal medíocre e pequeno quando encontrou, na ditadura militar, um aliado. Ganhou televisão, ganhou facilidades, e todos sabemos o que deu: mais que o apoio cego à ditadura, a alma.

A Globo virou grande não pelo talento de Roberto Marinho, que aliás jamais escreveu que se saiba uma legenda. Mas pelas absurdas vantagens que desfrutou na ditadura em troca de apoio.

Isso está registrado no livro Dossiê Geisel, da editora FGV, um vital retrato da ditadura feito a partir dos documentos pessoais de Geisel.

Leia.

Ali estão citados os encontros que Roberto Marinho fazia com empresários para promover entre eles a causa da ditadura.

Armando Falcão, ministro da Justiça de Geisel, se referia a Roberto Marinho como “o mais fiel e constante aliado” da ditadura entre os donos da mídia. E falava também dos pedidos de Roberto Marinho na contrapartida de tamanha fidelidade e constância.

A Globo grande nasceu desse conluio. Meritocracia zero, ou abaixo de zero.

E então você se chama Dirceu e se vê na iminência de fazer as malas e partir para o xilindró porque a Globo quer que isso aconteça.

Dirceu tem que ser duramente criticado, sim. Como uma das lideranças mais importantes do PT, fez menos do que deveria para reformar o Brasil nestes dez anos.

O Brasil avançou socialmente, mas menos do que poderia e deveria.

Um trabalho sério teria promovido mudanças, por exemplo, no Supremo. Você não pode colocar um Barbosa – por ser negro – ou um Fux – por matar no peito – e imaginar que vai transformar o STF num tribunal de sábios.

A conta pode chegar e chegou.

Mas isso é uma digressão.

De volta: você se chama Dirceu e foi condenado por eles.

A quem apelar?

Sim, à Corte Internacional da Organização dos Estados Americanos.

Seja o que for que a OEA delibere, lá a voz da mídia não perturbará tanto, não influenciará tanto, não terá efeito tão nocivo ao que se entende que seja justiça. A mesquinharia de Barbosa vai contar pouco.

Dirceu e os demais réus demoraram para fazer a coisa certa.
Paulo Nogueira

Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Com a inteligência e a reflexão cada vez mais raras e a intolerância daí decorrente, construímos uma sociedade cada vez mais dividida

Esta semana está sendo rica em episódios bastante esclarecedores sobre a internet, sua influência, seus impactos, sua repercussão e a sociedade que a produz e/ou “é produzida” por ela.

Alguns entenderão esses episódios como resultado de uma influência da rede, atribuindo a esta a causa do que sucedeu.

Outros, provavelmente, indo no sentido oposto, poderão dizer que o que houve foi apenas a rede expondo de forma mais ampla o que já está posto na sociedade - a raridade da inteligência, da capacidade de pensar, de estabelecer relações entre pessoas, entidades e eventos a partir de uma leitura própria, não mediada pelos "formadores de opinião", fartamente distribuídos pelos veículos da imprensa e outras instituições, incluídas aí, a academia e seus intelectuais.

Entre essas duas correntes, considero estar mais próximo desta última.

Mas, por tudo o que tenho observado, tendo a considerar uma terceira explicação, à qual, certamente, não aderirei sozinho. A de que se trata de um fenômeno dialético e não excludente de outras variantes. Entramos num círculo vicioso do qual poucos conseguem escapar. Essa "falta de inteligência" ou a "abdicação da capacidade de reflexão própria" pode, sim, estar sendo apenas mais evidenciada pela amplitude e repercussão que lhe são proporcionadas pelo alcance da internet. Mas, não apenas isso. O aumento do volume e da velocidade com que as informações são transmitidas pela rede, acompanhado da precária confiabilidade dessas mesmas informações e da ansiedade das pessoas pela exposição e celebridade, contribui para que a reflexão seja cada vez menos praticada.

O pior, nessa última hipótese, é que aqueles poucos que conseguem escapar desse círculo, ficam, obviamente, "fora do círculo", isolados, e passam a ser considerados como os esquisitos, os chatos, os "anormais". Isso é o que mais me assusta. Já que muitos preferem fazer o movimento oposto - entrarem no círculo a fim de se manterem em voga. A qualquer custo. Um dos episódios caracteriza isso exemplarmente.

Os episódios mencionados são 1) o artigo de Miriam Leitão, em O Globo, em que ela desanca dois dos "articulistas" mais festejados pelos conservadores - Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino; 2) o vídeo de Veja SP sobre o "sultão dos camarotes" que já se transformou num viral e gerou vários gifs e 3) um artigo publicado na Folha de S.Paulo por Antonio Prata, cuja ironia muitos não perceberam, dentre eles o roqueiro (ou ex-roqueiro, como queiram) Roger, um dos mais novos conservadores do mercado, que postou elogios no Twitter ao que ele "entendeu" do texto, pagando o maior mico.

Em minha opinião, os três episódios estão intimamente ligados e são a clara representação da futilização e da inflexão conservadora por que nossa sociedade vem passando, evidenciando aspectos de nosso atual cenário político e cultural. E demonstram como a ânsia por “postar”, “curtir” e “compartilhar” freneticamente embotam o raciocínio e induzem à irreflexão e, consequentemente, a conclusões equivocadas e perigosas.

No primeiro caso, muita gente “de esquerda” empolgou-se com a diatribe de Miriam Leitão, vendo nela o que não existia e imaginando, talvez, uma mudança de lado da jornalista global. Para ficar apenas em um exemplo, muitos não viram que, logo no primeiro parágrafo, ela repete uma acusação já fartamente exposta por seus “contendores”: a de que os blogueiros de esquerda - e que fazem o contraponto inexistente na grande mídia - não passam de fracassados e/ou vagabundos a soldo do governo para fazer a sua defesa.

Para ler o artigo e algumas análises mais lúcidas sobre ele sugiro a leitura de:

http://www.brasil247.com/pt/247/economia/119666/Miriam-Constantino-e-Reinaldo-emburrecem-o-Pa%C3%ADs.htm?fb_action_ids=703523096326826&fb_action_types=og.likes&fb_source=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582

http://www.ocafezinho.com/2013/11/04/miriam-leitao-x-reinaldo-azevedo-briga-na-casa-grande/

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-que-esta-por-tras-do-ataque-de-miriam-leitao-a-direita-hidrofoba-que-emburrece-o-pais/

Depois, em resposta a Miriam, Reinaldo Azevedo postou em seu blogue, ironicamente, que iria, então, parar de escrever. E muitos bradaram alvíssaras, acreditando, tolamente, que isso fosse verdade. Vejam:

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/119801/Reinaldo-o-rottweiler-promete-pendurar-as-chuteiras.htm

No segundo caso, a mesma VEJA - em cujo site Reinaldo Azevedo tem hospedado seu blogue -, postou um vídeo em que um “playboy” paulista exibe suas incursões e gastanças pela noite e, de quebra, dá dicas para quem pretender seguir seu exemplo. O episódio mostra bem o quão fútil e superficiais são nossas elites e também o que VEJA, quando não está cumprindo seu papel de partido político e atacando o governo, considera ser conteúdo de interesse jornalístico

http://youpix.com.br/fun/obrigado-internet-os-10-gifs-do-rei-do-camarote/

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-veja-sp-morreu-tecnicamente-com-o-sultao-dos-camarotes/

Uma boa crítica do episódio e também de como algo assim pode transformar-se na nossa catarse está em

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-rei-do-camarote-e-o-mito-do-vencedor-1654.html/view

Mas o episódio que mais me chamou a atenção e que vi como o mais representativo foi o terceiro deles.

No último domingo, Antonio Prata publicou o seguinte texto na Folha de S.Paulo:

Guinada à direita

Há uma década, escrevi um texto em que me definia como "meio intelectual, meio de esquerda". Não me arrependo. Era jovem e ignorante, vivia ainda enclausurado na primeira parte da célebre frase atribuída a Clemenceau, a Shaw e a Churchill, mas na verdade cunhada pelo próprio Senhor: "Um homem que não seja socialista aos 20 anos não tem coração; um homem que permaneça socialista aos 40 não tem cabeça". Agora que me aproximo dos 40, os cabelos rareiam e arejam-se as ideias, percebo que é chegado o momento de trocar as sístoles pelas sinapses.

Como todos sabem, vivemos num totalitarismo de esquerda. A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara. O pensamento que se queira libertário não pode ser outra coisa, portanto, senão reacionário. E quem há de negar que é preciso reagir? Quando terroristas, gays, índios, quilombolas, vândalos, maconheiros e aborteiros tentam levar a nação para o abismo, ou os cidadãos de bem se unem, como na saudosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que nos salvou do comunismo e nos garantiu 20 anos de paz, ou nos preparemos para a barbárie.

Se é que a barbárie já não começou... Veja as cotas, por exemplo. Após anos dessa boquinha descolada pelos negros nas universidades, o que aconteceu? O branco encontra-se escanteado. Para todo lado que se olhe, da direção das empresas aos volantes dos SUVs, das mesas do Fasano à primeira classe dos aviões, o que encontramos? Negros ricos e despreparados caçoando da meritocracia que reinava por estes costados desde a chegada de Cabral.

Antes que me acusem de racista, digo que meu problema não é com os negros, mas com os privilégios das "minorias". Vejam os índios, por exemplo. Não fosse por eles, seríamos uma potência agrícola. O Centro-Oeste produziria soja suficiente para a China fazer tofus do tamanho da Groenlândia, encheríamos nossos cofres e financiaríamos inúmeros estádios padrão Fifa, mas, como você sabe, esses ágrafos, apoiados pelo poderosíssimo lobby dos antropólogos, transformaram toda nossa área cultivável numa enorme taba. Lá estão, agora, improdutivos e nus, catando piolho e tomando 51.

Contra o poder desmesurado dado a negros, índios, gays e mulheres (as feias, inclusive), sem falar nos ex-pobres, que agora possuem dinheiro para avacalhar, com sua ignorância, a cultura reconhecidamente letrada de nossas elites, nós, da direita, temos uma arma: o humor. A esquerda, contudo, sabe do poder libertário de uma piada de preto, de gorda, de baiano, por isso tenta nos calar com o cabresto do politicamente correto. Só não jogo a toalha e mudo de vez pro Texas por acreditar que neste espaço, pelo menos, eu ainda posso lutar contra esses absurdos.

Peço perdão aos antigos leitores, desde já, se minha nova persona não lhes agradar, mas no pé que as coisas estão é preciso não apenas ser reacionário, mas sê-lo de modo grosseiro, raivoso e estridente. Do contrário, seguiremos dominados pelo crioléu, pelas bichas, pelas feministas rançosas e por velhos intelectuais da USP, essa gentalha que, finalmente compreendi, é a culpada por sermos um dos países mais desiguais, mais injustos e violentos sobre a Terra. Me aguardem.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2013/11/1366185-guinada-a-direita.shtml

Ao que parece, a grande maioria dos leitores não percebeu que se tratava de uma ironia. Foram tantos os comentários postados e os e-mails enviados ao autor com esculhambações partidas de quem se considera esquerdista/progressista e elogios e apoios de leitores conservadores que transitam aos montes pelos sites e portais da grande imprensa nacional, que ele precisou fazer um esclarecimento.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=651881084832478&set=a.112425728778019.12476.100000317783289&type=1&theater​​

Dentre os que o elogiaram estava o roqueiro Roger, do Ultraje a Rigor. O mesmo que dias atrás, junto com Danilo Gentili fazia piadas preconceituosas sobre nordestinos e cubanos (http://www.youtube.com/watch?v=0bpt0XNbits). Vejam o comentário dele no Twitter:

http://contextolivre.blogspot.com.br/2013/11/ex-roqueiro-que-alega-ter-qi-elevado.html?spref=fb

Pagou mico! Mas, por não haver entendido a ironia, Roger não precisa se atormentar. Afinal, ela é mesmo algo que depende de contexto e de conhecimento do leitor sobre as ideias e opiniões de quem a produz para sua compreensão.

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/11/05/a-ironia-na-internet-uma-figura-bonitinha-mas-ordinaria/

Aliás, nem tenho como saber se Roger se preocupa com contexto ou em conhecer o histórico dos autores do que lê. Mas, indo além do personagem em questão, é exatamente essa uma das questões que me chamam a atenção nesse caso, que, como já disse, julgo intimamente ligado aos demais.

A grande maioria dos usuários das redes sociais não lê os textos cujos links aparecem em suas linhas de tempo (timelines). No máximo, leem seus resumos. E os compartilham sem qualquer comentário - o que seria mesmo impossível já que não os leem. Isso impede que se saiba se discordam de seu conteúdo e leva a conclusão – não deveria, mas leva – de que o endossam. Ou seja, temos uma profusão de textos compartilhados milhões de vezes, mas que raramente são lidos. Então, pode até haver alguma produção, mas não difusão de informação e/ou conhecimento.

Neste momento, eu mesmo posso estar desperdiçando energia ao produzir esse texto que, provavelmente, pouquíssimas pessoas lerão. Haja angústia!

Não estou sugerindo que Roger não tenha lido o artigo; provavelmente o fez. Mas, ao que parece, nada sabia de seu autor e, mesmo assim, julgou tê-lo compreendido corretamente e igualmente correto recomendá-lo. E, a partir de seu post, muitas outras pessoas o repassaram e igualmente recomendaram.

Podemos até aceitar que se boa parte das pessoas não se interessa em informar-se ou adquirir conhecimento isso seja problema delas, algo de interesse absolutamente pessoal. De foro íntimo, diríamos. Mas como compreender que se repasse aquilo que não se conhece? Como, então, emitir opiniões a respeito de quase tudo? É só “achismo”, “eu acredito nisso”, “eu não acredito naquilo” e pronto!

Há pouco mais de três meses, postei aqui mesmo nesse blogue um texto exatamente sobre isso, relatando um fato ocorrido comigo.

E como entrar em debates contundentes, ofensivos, com uso de expressões chulas, moralmente agressivas, com pessoas que não se conhece e tecer sobre elas juízos de valor, como aqueles feitos pelos articulistas alvos de Miriam Leitão?

Eu mesmo, que nunca trabalhei no Serviço Público e nunca fui filiado a qualquer partido, outro dia passei pela experiência de ser acusado por uma pessoa que nada sabe a meu respeito - porque sequer me viu alguma vez na vida - de ser ocupante de cargo comissionado no governo, nomeado apenas para ficar na internet fazendo propaganda. Pode uma coisa dessas?

Embora em minha experiência pessoal venha encontrando maior número de pessoas com esse comportamento dentre aquelas que expressam um pensamento conservador, é preciso dizer que à esquerda também há aqueles, não poucos, que adotam tal postura.

Assim, vamos erigindo uma sociedade que, por não se preparar, está cada vez menos apta ao debate elucidativo e construtivo. E com isso vamos vendo, ao contrário do que se deseja e espera, uma sociedade cada vez mais dividida. Sim! Porque, em vez de termos apenas esquerda e direita ou progressistas e conservadores, temos divisões internas a esses grupos. A qualquer divergência que surja, por menor que seja, estabelecem-se cada vez mais e menores segmentos, cada um deles a defender aquela sua posição particular, sobre um aspecto particular da vida, contra todos os demais, independentemente de tantas outras posições concordantes.

E a intolerância parte também - muitas vezes, embora possa parecer apenas uma reação -, daqueles que pregam posições a princípio progressistas. Não se aceita que se pense diferente. É tudo ou nada. Ou você pensa 100% igual, ou você é inimigo.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Black Blocs, violência, razão, ganhos e perdas

Muito já disse e já se escreveu nos últimos meses sobre as ações dos chamados Black Blocs, suas motivações e consequências, sobre como são divulgadas pela “grande” mídia corporativa e sobre como têm sido reprimidas e tratadas pelo Estado (governadores, polícias, Ministério Público e Judiciário). Muitos a favor e outros tantos contrários. Alguns são ótimos artigos, sérios, profundos; outros nem tanto. E muitos não passam de mero “achismo” ou partidarismo. Eu mesmo já escrevi sobre o assunto (Black Blocs: quais as alternativas?, MARKO ZERO, 5/8/2013), afirmando não concordar com sua prática, mas também alertando para a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre as causas e origens desse fenômeno entre nós.

Um desses artigos chamou-me a atenção. É A guerra suja conta o vandalismo, de Matheus Boni Bittencourt, publicado no portal do Centro de Mídia Independente, em 12/9/2013, e republicado no site VIOMUNDO, em, 16/9/2013. Embora pareça tratar-se de um trabalho levado a termo com seriedade e profundidade ao menos razoável, o artigo peca, em minha opinião, pela parcialidade. O autor, claramente, adotou um dos lados e desenvolve toda sua argumentação a partir desse posicionamento prévio.

Vejamos!

O autor parte de uma premissa falsa - insistentemente repetida por ele na esperança de assim torná-la verdadeira -, de que a violência dos Black Blocs é "apenas" reação à repressão violenta praticada pela polícia. ISTO NÃO É VERDADE.

Houve repressão excessivamente violenta e arbitrariedades cometidas pela polícia, sim. Mas, houve, também, violência e vandalismo como ação inicial por parte desses grupos infiltrados entre os manifestantes.

Afirmar que só agem contra símbolos capitalistas também não é verdade. Muitas foram as instalações públicas danificadas ao longo das tais "manifestações".

Também não é verdade, como tenta fazer crer o autor, que os BB tenham ido às ruas para "defenderem" os manifestantes da violência policial. São numerosíssimos os "incidentes" em que a iniciativa de "confronto" foi claramente desses grupos.

E também não é integralmente verdadeiro o discurso de que isso foi o que a mídia quis que acreditássemos e que nos mostrou em imagens editadas e manipuladas. Apesar de isso haver acontecido, sim, também, os incidentes a que me refiro verdadeiramente ocorreram - alguns deles eu mesmo os vi, não fiquei sabendo apenas por me contarem.

E se, num esforço de estabelecimento de algum diálogo, aceitarmos o discurso de que a violência praticada é dirigida exclusivamente a ícones do capitalismo, cabe, então, perguntar: e de onde vem a ideia de que nosso povo esteja nas ruas manifestando-se contra o capitalismo? De onde vem a ideia de que tenhamos um país a clamar pela instauração de um outro sistema? Podemos alguns de nós ter esse desejo. E proclamá-lo. Ou agir de acordo com ele em nosso cotidiano ou em nossas manifestações políticas e/ou protestos. Mas estendê-los a toda a população ou mesmo apenas aos manifestantes “pacíficos” é claro exagero. Ao contrário do que podem pensar ou desejar os Black Blocs, não vivemos um ambiente revolucionário.

E se sua luta é revolucionária (e é legítimo que a façam), por acaso imaginaram que "o sistema" não reagiria? Que seria possível fazê-la dentro das "regras democráticas", a que o autor chama "de fachada", sem que houvesse repressão?

Há repressão e violência, sim, nas relações do Estado com alguns dos estratos da sociedade. Há, sim, desigualdade social. Todos sabemos disso. Mas, hoje, menos que antes. E a custa de muita luta. De muito sangue. De muita porrada. De muitas vidas. Não há um gigante que estivesse adormecido e que somente agora tenha acordado. Até porque, perdoem-me e permitam-me, o "gigante" que foi às ruas com seus atos violentos (mesmo que justificados, ao menos segundo ele próprio) é minoritário. Ao menos por enquanto. E de forma alguma representa o pensamento e a vontade "do país". Haja vista todas as críticas que tem recebido.

Os Black Blocs podem ter razões para escolherem sua forma de ação e agirem conforme essa escolha. Mas, "ter razões" não é o que leva a estar certo e, muito menos, a vencer. Basta nos perguntarmos: a que nos levaram até agora esses atos? O que ganhamos com eles?

Pode-se até acreditar e afirmar que o refluxo nas manifestações não tenha sido causado pelo repúdio da população à violência, que seja consequência do discurso hegemônico, midiático, que é conservador. Pode ser esta a verdade. Mas é fato, então, que esse discurso venceu. O que demonstra que a tática está errada. Não alcançou corações e mentes. E sem estes e estas, não há qualquer possibilidade de sucesso. Pode, sim, causar muito mais estragos do que ganhos. E levar a perder o pouco que até aqui conquistamos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O PL 4330/2004 e os absurdos da terceirização

É simplesmente inacreditável que um dos pontos ainda considerados polêmicos em relação à terceirização de serviços e/ou de mão de obra seja o de sua abrangência. Ou seja, se ela deve se restringir às chamadas atividades-meio ou pode atingir também as atividades-fim.

Por princípio, considero a terceirização um mal a ser extirpado das relações de trabalho. Mas, diante da realidade de ter que aceitá-la, como parece ser inexorável neste momento, é imperioso que fique absolutamente restrita ao serviços "secundários". Principalmente, quando se admite discutir sua prática também no serviço público, o que deveria, por várias razões, ser considerado inaceitável.

Ao longo de minha experiência profissional, tive a oportunidade de lidar tanto com a terceirização quanto com seu oposto - a contratação e gestão direta dos serviços e profissionais considerados "secundários". E foi essa experiência que me fez considerá-la negativa sob todos os aspectos.

Em algumas das empresas por que passei, fui responsável direto pelo pessoal e pelos serviços que, hoje, na grande maioria das organizações é terceirizado. E posso testemunhar que, quando administrados sob critérios racionais e de forma competente, não são, de maneira alguma, um obstáculo ao foco negocial. Pelo contrário, quando composta e gerida por quadro de pessoal próprio, a área responde às necessidades organizacionais com muito mais rapidez e qualidade, oferecendo, dessa forma, contribuição muito mais significativa ao atingimento dos objetivos propostos. Essa é a primeira razão pela qual sempre me contrapus à terceirização.

Depois, tive a infeliz oportunidade de trabalhar justo numa empresa "especializada" na prestação de serviços. E, aí, pude consolidar minha opinião, acrescentando outros pontos para sua fundamentação.

O primeiro deles, de ordem, digamos, ideológica, é que, se numa empresa qualquer, a apropriação dos frutos do trabalho pelo capital ocorre através do "produto", na terceirização, esse produto é a própria força de trabalho, ou seja, numa empresa "especializada" em terceirização de mão de obra, a "mercadoria" é o próprio trabalhador. O nome disso não seria escravidão?

Além disso, na prática, a grande maioria das empresas "especializadas" não tem qualquer poder de gestão sobre "seus" profissionais. A prática comum no dia a dia das operações dos serviços contratados é que os profissionais acabam por se reportar e submeter a uma relação hierárquica com os agentes da organização contratante. Fui testemunha de casos em que até a prerrogativa de poder disciplinar do empregador foi definida e assumida por esses agentes, cabendo à contratada - a tal empresa "especializada" - apenas executar o que lhe foi mandado fazer, aplicando "advertências" e "suspensões" segundo critérios e decisões dos prepostos da contratante. Essa prática corrobora o ponto anteriormente apontado - o de que, neste tipo de relação, o trabalhador é tratado como reles "mercadoria".

Outra prática extremamente danosa, e de fundamental importância quando se pensa em admitir a prática da terceirização nos serviços públicos, é que a "indicação" para contratação, movimentação, promoções etc é realizada pelos prepostos das organizações contratantes. Também posso testemunhar com minha própria experiência casos em que, para um dos postos de prestação de serviços a uma concessionária de serviços públicos, oito dos onze ocupantes - repito, oito em onze - eram membros da família de um dos prepostos da contratante.

Mais um ponto que reputo relevante considerar é que, quando contratado diretamente pela organização beneficiária dos serviços, pode o profissional sonhar com a progressão profissional como resultado de seu comprometimento e desempenho ou do avanço de sua escolarização. Quando responsável por esses profissionais, pude promover a ascensão de vários a deles a cargos e funções com melhores condições de trabalho e maior remuneração. Numa empresa "especializada", como resultado da constante troca de postos de trabalho e da rigidez decorrente da especificação dos serviços objeto dos contratos, isso se torna praticamente impossível. Num cenário como esse, o que resta ao trabalhador, como alternativa de crescimento, é "a porta da rua".

Por fim, o que também se pode verificar no cotidiano das organizações que praticam a terceirização é o estabelecimento de duas classes distintas de trabalhadores. Isso se dá, não apenas no aspecto remuneratório - com a adoção de salários e benefícios diferenciados - mas também no próprio dia a dia das relações interpessoais, em que os "terceirizados" são tratados, não apenas pelos prepostos, mas por boa parte dos demais profissionais do quadro próprio da contratante, como seres inferiores, aos quais compete exclusivamente cumprir as ordens daqueles recebidas. Esse caráter psicológico, na maioria das vezes simplesmente ignorado, e de consequências pessoais imensuráveis, é, também, gerador de graves consequências para a estrutura da sociedade, se a pretendemos mais igualitária e harmoniosa.

E é a essa "segunda classe" de trabalhadores que, segundo dados da PNAD 2011, se encontram alijados 31%, ou seja, quase um terço dos trabalhadores brasileiros. E onde se pretende fixá-los com as normas que o PL 4330/2004 pretende legitimar, tornando-a, assim, "cláusula pétrea" de uma estratificação social excludente e discriminadora.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Libertem nossos ativistas


A brasileira Ana Paula Maciel será mantida em prisão preventiva por 2 meses após protesto pacífico. (Foto: © Dmitri Sharomov / Greenpeace)

Um grupo de 28 ativistas do Greenpeace Internacional e dois jornalistas estão presos na Rússia suspeitos de pirataria. Entre eles está a bióloga brasileira Ana Paula Maciel, de 31 anos.

O grupo foi preso no dia 19 após um protesto pacífico contra a exploração de petróleo no Ártico, em uma plataforma da Gazprom, no mar Pechora. Todos eles podem ser condenados a até 15 anos de prisão.


Precisamos de sua ajuda para levar Ana Paula, os ativistas e jornalistas de volta para casa. Envie uma carta à presidente Dilma e ao embaixador da Rússia no Brasil Sergey Pogóssovitch pedindo a intervenção deles junto às autoridades russas.

Você também pode ligar para a Embaixada ou para os Consulados do Rio de Janeiro e São Paulo para pedir a libertação da nossa ativista Ana Paula.

Embaixada da Rússia: (61) 3223.3094/4094

Consulado Geral da Rússia em São Paulo: (11) 3814.4100
Consulado Geral da Rússia no Rio de Janeiro: (21) 2274.009


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A banalidade de Gabeira

No início do mês de agosto (dia 2, sexta-feira), em artigo postado em seu blogue e no site do Estadão, usando como motes o filme Hannah Arendt, a que diz ter assistido, e o discurso de Dilma Rosussef quando da chegada do Papa Francisco ao Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude, Fernando Gabeira compara a presidenta ao nazista Adolf Eichmann, por ser, como este, alguém que se limita a "cumprir ordens", incapaz de pensar. Segundo Gabeira, Dilma, seu partido e seu governo têm características totalitárias, não lhes importando, por conta desse viés, a realidade, mas apenas a versão que lhes seja mais favorável e interessante. Para ele, Dilma é alguém que se limita a repetir o que lhe dita a cúpula do partido e que se porta como apenas e tão somente "uma peça da engrenagem". Uma engrenagem monstruosa, claro, determinada a perpetuar-se e que, para isso, utilizar-se-ia de indivíduos que, como ela, seriam meros instrumentos, substituíveis conforme as circunstâncias e os objetivos.

No dia seguinte, sábado, 3/8, o artigo foi republicado por Augusto Nunes em seu blogue/coluna no site de Veja.

O artigo de Gabeira tem como título A banalidade de Dilma, numa alusão direta à tese da pensadora sobre "a banalidade do mal", elaborada e divulgada por ela após ter assistido, em Jerusalém, ao julgamento do coronel alemão, responsável pela logística de transporte dos prisioneiros judeus dos campos de concentração para as câmaras em que viriam a ser executados. Hannah Arendt - uma judia alemã que conseguira escapar de um campo de prisioneiros na França e se estabelecido nos EUA, onde desenvolveu sua carreira acadêmica -, ofereceu-se para cobrir o julgamento para a revista New Yorker, tendo ali publicado, em cinco capítulos, o que mais tarde se transformaria no livro Eichmman em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal. Nele, a filósofa retrata não o que todos esperavam e desejavam ver - um assassino monstruoso e cruel -, mas aquilo com que se deparou: um burocrata cumpridor de ordens; desprovido de capacidade crítica ante "a missão que lhe cabia desempenhar"; alguém que simplesmente abdicara do exercício da capacidade de pensar e que, portanto, se desumanizara.

Deixando-se, por enquanto, de lado essa comparação esdrúxula, o fato de o artigo de Gabeira ter sido publicado por Estadão e Veja diz muito de suas motivações e de seus objetivos. A desqualificação de Dilma ali levada a termo é rasteira e tem como foco a eleição do ano que vem, cuja campanha já está precipitadamente lançada. Outro artigo dele, publicado no mesmo blogue no final de junho, corrobora essa interpretação. Ainda sob o impacto da onda de manifestações realizadas país afora e animado pela brusca queda, então verificada, da popularidade da presidenta, ele chegou a vaticinar que "o ciclo petista se encerrou".

Veja dispensa comentários. Não é uma revista, é um folhetim oposicionista, quase um partido de papel. Não que se pense ou proponha que um órgão de imprensa tenha que ser neutro politicamente, ou deva abdicar de assumir posições ou tomar partido. Nada disso. O problema é a forma como faz isso, hoje no Brasil, grande parte da mídia corporativa: apresentam opiniões como se fossem fatos, omitem informações, inventam situações, distorcem outras, invertem a ordem de eventos - mostrando o que é consequência como se fosse causa e vice-versa -, manipulam imagens... A capa de sua edição da semana passada - com a foto de uma jovem com o rosto encoberto por uma peça vermelha - é um claro exemplo disso. Os "Black Blocs" usam preto, não vermelho. A escolha da cor não é ingênua e nem um equívoco. E a moça utilizada - a expressão é exatamente essa, "utilizada" - já disparou, na blogosfera, toda a sua indignação ante a distorção de suas declarações.

É sugestivo notar que Gabeira exibe ao final da biografia que se encontra em seu blogue um elogio recebido de Veja.

Augusto Nunes é a figurinha simpática que atualmente comando o Roda Viva da TV Cultura, ​um jornalista que em seu ​blogue edita os comentários dos leitores, publica-os parcialmente e responde-os com xingamentos. Ele deve ter adorado replicar esse artigo​, já que ​habitualmente ​​se refere a​ Dilma ​como "dois neurônios", afirmando que ela não sabe falar e nem escrever. Usa, inclusive, um vídeo (na verdade, um trecho editado, descontextualizado) de apenas 28 segundos, apontando "erros" de português e matemática para ​ridicularizá​-la​. Omite que se trata de um discurso feito de improviso e para uma população de periferia. Por educação e respeito a meus leitores, recuso-me a reproduzir os termos com ​que ele costuma referir-se ​à presidenta, a Lula e a qualquer político do PT.

E o Estadão, se não se compara à ​Veja e à ​Folha e não pode ser acusado de desonestidade fática, não se pode ignorar que é um legítimo representante do pensamento conservador. O que é seu direito, diga-se. Mas o fato de ser ​nesses veículos​ onde Gabeira escreve diz muito sobre o conteúdo de seus artigos e do ideário a que serve.

Gabeira acusa Dilma de não pensar. E diz alguma verdade ao longo do artigo. Não essa, é claro, que não passa de um disparate de alguém determinado a desqualificar. Sim, porque nos termos em que Gabeira se expressa, não se pode nem chamar seu artigo de uma crítica. Trata-se de depreciar. Perdeu ele, portanto, uma oportunidade de dizer as mesmas verdades, apontando, porém, motivos razoáveis para sua discordância e, principalmente, alternativas ao que estivesse criticando. Essa é, aliás, como ​se sabe, uma das maneiras de identificar se estamos diante de uma crítica autêntica, ou de uma reles detração: a apresentação (ou não) de alternativas ​àquilo​ que se aponta como equivocado​ ou indevido​.

Gabeira também afirma algumas obviedades. Inclusive ao se referir ao filme, sobre o qual, na verdade pouco fala e que​, como disse antes,​ parece ter-lhe servido apenas como pretexto. E também nas referências ao pensamento de Hannah Arendt, que é muito mais elaborado do que o que ele expõe. O que não corrobora sua capacidade intelectual (dele, Gabeira) e põe em xeque o próprio título e a finalidade de seu artigo.​ Pelo que menciona - que é apenas o que é mostrado no filme, nada além disso -, pode-se até por em questão se ele realmente conhece a obra e o pensamento da filósofa.​

​O discurso d​e Dilma na recepção ao Papa​, cujo texto e o áudio​ est​ão disponíve​is na internet​, é mesmo uma peça sofrível. Não ​há elementos para afirmar, mas ​é razoável crer que tenha sido escrito ou sugerido por ​um assessor direto, ​católico e com conhecidíssimas ligações com a Igreja. Foi um discurso ​desnecessariamente longo. E, realmente, não cabiam, à ocasião, nem o autoelogio das ações do governo, nem a proposição ou sugestão de parcerias entre este e a Igreja. Até porque Francisco não estava no país para negócios de Estado. Veio ao Rio como dirigente espiritual, para um evento religioso, voltado para o público interno da Igreja, que apenas por suas dimensões se realiza em ambiente aberto.

​Contudo, Gabeira erra ao dizer que a proposta de parceria é descabida porque a Igreja já tem suas próprias estratégias. Ora, por que não propor? Ao que conste, é exatamente na possibilidade de união de forças e na sinergia das ações que reside a vantagem das parcerias. E, além de distorcer o sentido das palavras da presidenta, ele também extrapola ao afirmar que a tal parceria não interessaria à Igreja porque essa não precisaria do PT para implantar suas estratégias mundialmente. O que Dilma fez foi destacar que o governo e a Igreja já são parceiros em várias ações em favor dos mais pobres e propor que a parceria se estendesse a ponto de poder levar a outros países algumas das ações aqui desenvolvidas e que têm alcançado resultados auspiciosos. Ao fazê-lo, a presidenta sequer ventilou que a Igreja pudesse depender do apoio do PT; o que fez foi, ao contrário, pedir a ajuda da Igreja para difundi-las e implementá-las. Gabeira é quem não entendeu o que foi dito.

Mas, ao ler com atenção, percebe-se claramente que ​o jornalista​ não está nem um pouco preocupado com isso. Assim como o filme, ​o discurso é apenas mais um pretexto para seus objetivos: a desqualificação de Dilma, de seu governo como um todo e do PT. E ainda procurou respingar suas "críticas" nos governantes do Rio - prefeito e governador - seus adversários nas últimas eleições. Talvez por isso, não tenha entendido bem o que foi dito: por não ter prestado atenção. Ou por ter, ele sim, se recusado a pensar.​

Confesso que - a despeito de, em face das alternativas, apoiar o PT e o governo -, Dilma me decepciona. Considero-a politicamente fraca. É minha opinião que para ser presidente da república não basta ser um ótimo gestor (nem vou entrar na polêmica de se ela é ou não; Gabeira diz que não, sem apontar seus fracassos; mas ela tem uma história ​como ​Secretária de Estado no R​io Grande do ​S​ul​ e foi ministra, primeiro,​ das Minas e Energia e, depois, da Casa Civil). Um chefe de governo tem que ser político, tem que gostar de política e tem que saber fazê-la. Dilma não é, não gosta e não sabe fazer. E, pior, não deixa que outros façam por ela. Mas não é a isso que ele se refere.

Uma das obviedades apontadas por Gabeira é a de que Dilma se elegeu graças à máquina partidária. Desnecessário dizê-lo. Até os postes sabem. Mas, ele o faz com objetivo definido. Uma obviedade, por ser verdade,​ aos menos para os incautos​ credencia aquele que a proclama para afirmações outras que podem, e em geral é o que ocorre, ser assumidas como igualmente verdadeiras. É exatamente o que ele faz em seguida. Afirma que, além do partido, sua eleição ocorreu "com o apoio dos grandes empresários que florescem à sombra de um governo devasso, e injetando milhões de reais no esquema de marketing". Ou seja, além de desqualificá-la como gestora, que é o que poucos, mesmo entre a oposição e a mídia corporativa, ainda se permitem reconhecer-lhe, ele a compromete eticamente e, de quebra, de olho no sentimento expresso nas manifestações de rua e no desenrolar do julgamento do Mentirão, aponta suas baterias contra o PT. Ora, se a única característica de Dilma apontada como positiva - a de gestora - não é bem assim, se ela é uma queridinha dos empresários (leia-se inimigos dos pobres), se seu governo é corrupto, se foi eleita graças à gastança de dinheiro (leia-se público), se é mero fruto de propaganda e se seu partido, o único responsável por sua eleição, não passa de um antro, ... por que, então, reelegê-la? Por que não mudar? Por que não escorraçá-los, a ambos, do poder?

Matreiramente, Gabeira esconde que, por aqui, empresários sempre floresceram à sombra de governos. Muito mais em tempos passados. E com a utilização de recursos públicos. Inclusive os empresários da mídia, ramo onde atua. Acusa o governo de devasso, falseando em duas direções. A primeira, ao sugerir, como faz todo o tempo a grande mídia, que a corrupção nasceu com o governo do PT. E a segunda, ao não distinguir os governos​. O "mensalão", de que se aproveita sem mencionar, ocorreu (se ocorreu) ​durante o mandato de Lula​. E Dilma ​tem trat​ad​o as denúncias e os denunciados de corrupção de forma bem diferente. E falta igualmente com a verdade ao não dizer ​que, não só no Brasil, mas em quase todo o mundo, não há eleição sem propaganda.

Depois, ​Gabeira cita o fato de Dilma não haver correspondido a uma "expectativa ingênua", de alguns, de que pudesse se "separar" do PT. Nesse ponto - delicado, pois afirmar com todas as letras que ela devesse trair suas origens poderia não soar bem a quem o lesse -, ele sugere, sorrateira e sub-repticiamente, que fosse legítimo fazê-lo, ao se referir à ingenuidade dos que a imaginaram "diferente" e vislumbraram-lhe alguma decência.

Em seguida ele afirma que o PT errou na avaliação da crise de 2008. E tasca mais uma obviedade - a de que se tratou da primeira crise do capitalismo desde 1930. Mas, como faz ao longo de todo o artigo, não mostra qual é a interpretação "correta". Afirma apenas que, ao mudar o paradigma, deixando de seguir o receituário do "Consenso de Washington" - expresso repetidamente nas recomendações do FMI para aplicação de arrochos fiscal e salarial, redução de gastos, desregulamentação da economia, abertura indiscriminada do mercado interno às importações e ao ingresso de investimentos privados em serviços públicos e desalienação de ativos públicos (privatização) -, o governo o teria feito apenas por supor que "à crise do capitalismo, sucede o socialismo", por ser incapaz de pensar e agir seguindo um "dogma" da esquerda (talvez aqui um dos motivos da alusão à visita do Papa). E ainda aponta como fruto de favorecimento do governo a seus protegidos um fato natural do capitalismo (ou que ao menos deveria sê-lo), que é a quebra de alguns empresários como decorrência do risco dos negócios num ambiente de livre competição. E o faz sem indicar qualquer dado concreto a sustentar sua afirmação, ou seja, de forma absolutamente leviana.

Com a pretensão de "amarrar" o que seriam suas conclusões com os pretextos (não premissas) utilizados, Gabeira afirma que o discurso de Dilma e do governo de que a onda de manifestações é fruto de seus acertos e não de seus erros é uma manifestação de seu viés "totalitário", por torcer a realidade. O que é, no mínimo, questionável. Até porque ele não apresenta argumentos para justificar o que afirma. E até se pode discordar da interpretação e do discurso do governo, mas daí a sugerir que seja totalitário vai uma distância intergalática.

Uma análise rasa das insatisfações e reivindicações que se conseguiu identificar durante os protestos, deixa claro que, pela organização do Estado brasileiro e pelas atribuições constitucionalmente definidas, a grande maioria delas deveria ser dirigida aos governos estaduais e municipais. E que apenas por ignorância e influência midiática foram direcionadas ao governo federal. Isso fica claro quando se percebe que até questões judiciais e legislativas foram debitadas ao executivo, numa clara demonstração do desconhecimento das competências e atribuições de cada um dos Poderes. E mais, mesmo diante da constatação de que até agora ninguém conseguiu avaliar e compreender com precisão o que aconteceu no país nos últimos meses, se houve alguém que conseguiu estabelecer algum diálogo e oferecer alguma resposta, mesmo que não a mais adequada, ao contrário do que Gabeira tenta desajeitadamente provar, esse alguém foi Dilma.

É estranho que Gabeira acuse de não pensar, justamente alguém que, como ele, sentiu na própria carne a dureza de um regime ditatorial e que, também como ele, mergulhou na clandestinidade e pegou em armas como forma de reação e resistência. Só quem pensa é capaz de resistir ou reagir. Se realmente conhecesse um pouco mais da obra de Hannah Arendt, saberia, por exemplo, que é isso o que ela afirma e é disso que ela trata em outros três de seus livros: Homens em tempos sombrios, A vida do espírito e Responsabilidade e julgamento.

Mas este não é o único sintoma de que talvez seja Gabeira que se tenha deixado tomar pela banalidade. Naquele mesmo artigo em que vaticinou o fim do ciclo petista, ele afirmou também não acreditar que o PT estivesse tentando aplicar um golpe, inclusive por não haver condições para isso no momento histórico por que passamos. Contudo, a simples menção a essa possibilidade trai suas intenções e, numa inversão da acusação feita por ele, faz-nos supor que talvez seja ele quem parece não se importar com a realidade, mas apenas com a versão que melhor cabe a seus propósitos. Afinal, se há algum rumor de golpe nesse momento, ele vem de outra direção, bem mais próxima do campo em que Gabeira prefere transitar atualmente.

E, ainda mais, em outro artigo, publicado em 1/7, é Gabeira quem se declara contrário à proposta de plebiscito apresentada por Dilma como forma de ouvir o país sobre a tão necessária reforma política que o parlamento não consegue levar a termo. Quem é o autoritário nesse episódio? Aquela que o propõe ou aquele que o rejeita? Haverá uma resposta pronta e, sem qualquer margem de dúvida, acertada? Dá para responder de pronto, imediata e automaticamente? Sem pensar? Será possível acreditar que possa partir de alguém com caráter totalitário, e bem no calor de manifestações e protestos vistos como espontâneos, a ideia e a proposta da realização de uma consulta popular? Para responder a isso é preciso refletir. O que Gabeira parece sequer ter-se dado o tempo de fazer.

Ao que parece, é Gabeira quem não está pensando.